Se saudade enchesse copo, a minha seria capaz de matar sede sertaneja, apagar incêndios, irrigar canaviais e ainda sobrariam gotas para escorrer pelo meu rosto a alegria ao te ver chegar, mesmo que em sonho.
Se ela virasse tijolo, construiria uma ponte pra dar a volta ao mundo tentando distrair os pensamentos que não saem do mesmo lugar.
Se ela fosse verde acabaria o desmatamento, resgataria a mãe natureza, fazendo brotar flores no cimento e tudo cheirar manjericão.
De vidro deixaria transparecer a força do sangue que corre e corre e corre tentando irrigar as pulsações intermináveis de coração apertado.
Se fosse música, acalmaria os insones, embalaria os amores e abafaria o tom das dores.
E se é apenas uma saudade, só minha, tão pequenina, o que ela faz é partir e voltar. Voltar sempre pra mim, sem avisar.
Se ela também fosse sua, deixaria de existir. Saudade compartilhada é força de chegar perto, mover a vida, acariciar.
De copo vazio, o incêndio continua aceso, a sede gritando que a lágrima é de tristeza.
A ponte é corda bamba e há cimento fechando as janelas pra não deixar entrar fumaça. A música e o coração calaram ao som da insônia histérica. A dor avisa que ela vai voltar e vai voltar e vai voltar. Você é que nunca vem.